Descaso com a saúde em São Paulo

Como um transplantado, dependente de medicamentos para evitar a rejeição do órgão recebido, pode explicar para o seu organismo que, excepcionalmente, ele não receberá o remédio necessário naquela semana? “Aguenta aí só uns cinco dias. Depois eu volto a te dar o medicamento. O que são 5, 10, 15 dias na vida de alguém, não é, rim?

O corpo não tem essa compreensão; os órgãos não podem esperar pacientemente enquanto a logística do SUS/Ministério da Saúde se reorganiza e deixa as farmácias dos postos de alto custo sem o estoque necessário para atender às necessidades dos pacientes cadastrados para o recebimento dos medicamentos.

Para os receptores e para sua família, esse é o tipo de situação que não tem o menor cabimento! Depois de enfrentar anos de tratamento, hemodiálise… e, enfim, conseguir um órgão, não tem nada no mundo que justifique a perda dele por causa de erro de logística! O Ministério da Saúde não pode tratar o ser humano como tanto descaso!

Desde o final de setembro – até onde fui informada, mas é possível que esse problema já venha de antes – estão faltando medicamentos essenciais para os pacientes transplantados, como Myfortic 360 mg e Tacrolimo 1 mg. Em contato com a Novartis, laboratório responsável pela fabricação do Myfortic, fui informada de que sua fabricação e distribuição (para governo e farmácias) estão ocorrendo normalmente. Ou seja, a não reposição de estoques não é falha do laboratório. Já em contato com o Ministério da Saúde, por meio de seu perfil no Twitter, recebi a informação de que “o medicamento [Myfortic 360 mg] é adquirido de forma centralizada pelo Ministério da Saúde. No momento [dia 11/10] estão em andamento os processos de distribuição em âmbito estadual e a previsão de abastecimento das Farmácias de Medicamento Especializados [postos de alto custo] é até 14/10/2016”.

Excelente saber que até amanhã, dia 14 de outubro, os medicamentos estarão nas farmácias. Excelente mesmo! Mas o problema causado por esse descaso com a logística pode custar a vida ou, pelo menos, o órgão recebido por muitas pessoas em todo o Estado de São Paulo. Aparentemente, pelo que notei em conversas em grupos de transplantados no Facebook, o problema é restrito a São Paulo. Como pode o estado mais importante (pelo menos em termos econômicos) do País ter esse tipo de problema? Não tem gente qualificada para cuidar da logística dos medicamentos? Ou o problema é desvio de recursos, incompetência…?

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Crise, corrupção e a necessidade de atitudes éticas na condução dos negócios

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Deltan Dallagnol

Como seria o mundo se você não existisse? Um lugar melhor ou um lugar pior? Com estes dois questionamentos, Deltan Dallagnol, procurador da República e coordenador da Força-Tarefa da operação Lava Jato em Curitiba (PR), iniciou sua palestra no segundo dia do 18º Encontro Nacional de RI e Mercado de Capitais. “Falar sobre ética nos negócios é falar sobre como seriam as coisas se você ou eu não existíssemos. Se vocês não existissem, também não existiriam profissionais responsáveis por uma atividade econômica que gera milhares, quiçá milhões, de empregos no Brasil”.

Para o procurador, ética e lucro nos negócios não são itens excludentes. Ao contrário, ambos podem muito bem convergir, desde que sejam respeitados limites éticos para a obtenção desse lucro. “Existe uma clara relação entre índices de corrupção × índices de desenvolvimento humano (IDH) e social. Os países com menos corrupção são aqueles que apresentam os melhores índices de saúde, educação e renda per capita. Isso significa que quanto menos corrupção houver, melhores serão as condições econômicas do país”, destacou Dallagnol.

Quando se relaciona corrupção × competitividade das empresas de um determinado país no cenário global, quanto menos corrupto ele é, mais competitivas serão as suas empresas no cenário global. Isso é claro, porque a corrupção incrementa os riscos, gerando um componente de imprevisibilidade. Ninguém sabe o quanto vai se perder se aquela empresa em que se investe estiver potencialmente relacionada à corrupção. “Quem hoje em dia investiria, em sã consciência, em uma das maiores empresas de construção civil do país? Ninguém, não é? Isso mostra o quanto é importante que se debata a questão da ética, porque o problema de corrupção em determinadas empresas do setor acaba afetando não apenas elas próprias, mas também as empresas corretas que estão naquele mesmo setor”, pontuou o procurador.

Protagonismo

Para o coordenador da Força-Tarefa da Lava-Jato, o que causa problemas na economia é a corrupção, o que reforça a relação corrupção × desenvolvimento econômico e social. “É comum ouvirmos pessoas dizendo que gostariam de sair do Brasil, como forma de tentar escapar da crise econômica e moral que o país enfrenta. Mas não adianta se iludir: ainda que a pessoa saia do Brasil, o Brasil não sairá de dentro dela”.

Seja morando fora ou dentro do Brasil, o que todos querem é um país melhor e que respeite os direitos da sociedade, no qual não existam buracos da corrupção pelos quais escorre o dinheiro que deveria ser destinado à saúde, à educação, aos investimentos em infraestrutura ou aos investimentos produtivos. “Todos queremos viver em um país em que o sistema político gere representatividade. Nós estamos cansados de ouvir que quem está em Brasília não nos representa. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, nós ficamos estáticos, esperando heróis que nos salvem, enquanto nos colocamos como vítimas da história”, asseverou o procurador. “Precisamos deixar de ser vítimas do nosso passado para sermos autores da nossa história, senhores do nosso destino. Se queremos uma sociedade melhor, precisamos de um país mais ético. Acredito que o Brasil tenha, sim, saída, e que ela não é pela porta do aeroporto”.

Apagão ético

No tocante à ética, a situação dos brasileiros não é das melhores. Vivemos aquilo que se chama de “apagão ético”.

Dallagnol citou dados de uma pesquisa do Ibope sobre o perfil ético dos profissionais das corporações brasileiras, que apontou que 61% das pessoas consideram, sob determinadas circunstâncias, usar atalhos antiéticos ou ilícitos, enquanto 52% dos entrevisados revelaram permissividade com suborno, ou seja, que aceitariam receber suborno como funcionário da empresa a depender da situação.

Agora, não relacionado ao campo empresarial, mas seguindo para um contexto maior, essa mesma pesquisa mostrou um paradoxo da opinião pública no tocante à corrupção e à ética. O estudo concluiu que o eleitorado sistematicamente indica repúdio aos atos ilícitos atribuídos à classe política brasileira, mas se enxerga razoavelmente honesto ao mesmo em que pratica ou aceita uma diversidade de transgressões da lei no seu cotidiano.

“O fato social sobre o qual essa pesquisa se debruçou pode ser retratado em situações do cotidiano, como uma pessoa que estaciona em local errado, alguém que é pego dirigindo embriagado, uma ligação clandestina de internet ou de TV a cabo, desvio de energia elétrica, compra CDs e DVDs piratas, entre outras atitudes ilegais, e que se senta diante da televisão para assistir ao telejornal e questiona ‘de onde sai tanto político safado?’. O lugar de onde vem os candidatos a políticos é o mesmo lugar de onde vem os candidatos a juízes, a procuradores da República, os empresários. O que existe, na realidade, é um sistema político que favorece a corrupção, pois estimula comportamentos desviados. Há ainda um problema maior, de uma cultura mais ampla e tolerante com a corrupção”, ressaltou o procurador.

Voltando aos dados da pesquisa do Ibope, quando perguntados se conhece alguém que tenha fingido doença para não trabalhar, 50% respondeu positivamente; 34% das pessoas conhecem alguém que sonegou tributos; 26% conhecem quem furtou em supermercado; 22% conhecem alguém que obteve benefício indevido do governo; 24% conhecem quem fraudou o seguro-saúde; 19% conhecem quem fraudou o seguro de automóvel; 41% dos entrevistados votariam em alguém em troca de emprego; 38% votariam em alguém em troca de favor; e 75% fazem ou fariam 1 de 13 atos de corrupção listados na pesquisa.

Ranking ético

Com base nos dados da ONG Transparência Internacional, o Brasil não é um bom país no tocante à corrupção, ocupando atualmente a 76ª posição no ranking. “A nossa nota é 38, quando a nota mínima aceitável é 5 – estamos no vermelho no combate à corrupção e na busca pela ética e pela honestidade”, disparou Deltan Dallagnol.

Embora esse ranking diga respeito à corrupção governamental, esta e ética nos negócios são duas faces da mesma moeda, uma vez na corrupção tem quem receba, mas também tem que pague. “Nós não podemos esquecer que a corrupção no Brasil não é um problema partidário nem desse ou daquele governo; ela vem desde longa data”, ele garantiu.

Segundo estudiosos, apenas na década de 1990 foram registrados 88 escândalos de corrupção apenas na área federal. Foi nessa década que surgiu, por exemplo, o escândalo dos “anões do orçamento”, em que o então deputado João Alves justificou seu vasto patrimônio alegando ter sido premiado pela loteria mais de cem vezes. Recentemente, outro político afirmou ter ganhado na loteria 14 vezes em 12 meses.

Para concluir a análise sobre o apagão ético, o coordenador da Força-Tarefa da Lava-Jato comentou brevemente o caso da Petrobras. “O que nós descobrimos foi que empresários pagavam propina para agentes públicos e agentes políticos. Intermediando esses pagamentos, haviam lavadores de dinheiro profissionais, como Alberto Yousseff. Essas pessoas cuidavam da lavagem e faziam com que o dinheiro, de uma ponta, destinada à propina, chegasse à outra ponta com aparência de dinheiro limpo. Do lado das empresas, identificamos que várias delas adotaram a corrupção como modelo de negócio. Uma dessas empresas investigada chegou a ter dentro dela um setor específico para gerenciar o pagamento de propina. Mais do que isso, as empresas passaram a implementar a corrupção como regra do jogo, chegando-se ao ponto de sequer se saber porque estavam pagando, pois não se tinha em vista um benefício concreto. Esse dinheiro funcionava como um tipo de crédito político”, comentou.

Um fator interessante destacado foi o fato de a corrupção ir ainda mais além. “Os americanos usam a expressão slippery slope (ladeira escorregadia) para explicar casos em que quem ultrapassa o limite da ética para corromper agentes externos em benefício da empresa, também vai corromper em malefício da empresa”, afirmou Dallagnol.

O que a Força-Tarefa identificou no caso da Petrobras foi que diversos executivos e funcionários recebiam parte da propina paga de volta. Ou seja, mesmo pagando a propina em benefício da empresa, havia uma maximização do valor para que alguém pudesse receber a diferença de volta.

“Como explicar tudo isso? Não existe uma explicação única, mas certamente existem alguns fatores que contribuem muito com essa realidade, como a existência de uma cultura de ética de conveniência e uma política falha, com uma série de desincentivos a práticas honestas e estímulo a práticas corruptas. Se o foco está no resultado, serão feitos quaisquer negócios para se alcançar o objetivo, seja licito ou ilícito, desde que seja em benefício daquele que está agindo, ainda que seja em prejuízo de toda a sociedade”, afirmou Dallagnol.

Parâmetro ético

Somente se pode dizer que algo é belo ou feio, certo ou errado, moral ou imoral, se há um referencial que possibilite tal julgamento. O problema, segundo o procurador, é que vivemos em um período de relativização de princípios e valores e de quebra de paradigmas ou referenciais éticos.

Dallagnol afirmou que, em sua vida, ele adota a teoria de Kant, de cunho humanista, que diz que se você não puder contar o que você fez e como você fez porque ficaria com vergonha, isso está errado. “Mas, independentemente da teoria que se adote, é preciso que as discussões sobre ética e moral sejam aprofundadas e, a partir daí, seguir um caminho que não seja da ética da conveniência”, ele ressaltou.

O procurador Deltan Dallagnol fez uma ressalva quanto à racionalização, que é revestir uma ação incorreta com uma capa de boa justificativa. “Você racionaliza quando busca se justificar quanto a sua conduta. Um exemplo simples é um cônjuge dizer ao outro que não quer que ele coma uma sobremesa sob a alegação de que doce em excesso faz mal à saúde, quando, na realidade, sua ação visa manter o parceiro dentro de um padrão estético aceito pela sociedade”, ele explicou, e citou dois casos observados durante as investigações da força-tarefa.

Na Lava-Jato foram identificados diversos exemplos de racionalização. “Havia um executivo que conversaria conosco, explicando o que fez, o que aconteceu, mas ele se recusava a falar que pagou propina a um funcionário público. Segundo ele, o pagamento efetuado era uma ‘comissão’ merecida pelo funcionário em razão de algo que ele fez. Outros empresários se recusavam a utilizar a palavra cartel; falavam que o que existia era um ‘pacto de não agressão’”, mencionou o coordenador da força-tarefa.

Lava-Jato

Deltan Dallagnol afirmou que a operação Lava-Jato não tem o poder de acabar com a corrupção no país, como muitas pessoas creem ou, ao menos, desejam. “A função da operação é tratar um tumor que apareceu no país. O problema é que enquanto estamos cuidando de um, vários outros tumores estão surgindo. No caso do Mensalão, por exemplo, muitos acreditavam que ele seria uma virada de página do país, mas não foi. Quando o Mensalão estava sendo processado, vários outros escândalos, inclusive a Lava-Jato, estavam acontecendo e outros ainda não haviam sido descobertos”, lembrou o procurador.

Segundo ele, se nós queremos mudar a realidade, podemos usar a Lava-Jato como forma de aumentar da esperança, como uma alavanca, mas precisamos mudar as condições que favorecem a corrupção em nosso país. “A Lava-Jato representa um momento de força institucional, a força da nossa democracia, demonstrando que nossas instituições são fortes. Agora se nós queremos que nossa democracia melhore, precisamos de representatividade política e de reformas”.

Dallagnol ressaltou que são necessárias reformas mais profundas para reduzir os estímulos à corrupção e citou a importância de aprovar a proposta que reúne as dez medidas contra a corrupção elaboradas pelo Ministério Público Federal (MPF) e que foram enviadas ao Congresso Nacional com o apoio de 2,2 milhões de assinaturas. “Muitos parlamentares se movimentaram para que esse projeto tramite de modo célere e seja aprovado. Foi criada uma frente parlamentar, para aprovação das medidas, com mais de 200 parlamentares. Nossa convicção é de que esse projeto vai caminhar e, com a apoio da sociedade, será aprovado”, disse. Entre as medidas propostas está o aumento de penas para crimes relacionados com a corrupção e a criminalização das doações não declaradas em campanhas eleitorais.

por Paula Craveiro
29/06/2016

Pearl Jam faz show intenso com mais de 3 horas de duração em São Paulo

Por Paula Craveiro para Drop Music

Fã que é fã não se intimida com calor de mais de 30 graus nem com chuva intensa, ventania e tempestade de raios. E isso foi comprovado pela legião de fãs do Pearl Jam que lotou o estádio do Morumbi, em São Paulo, na noite de 14 de novembro, para a apresentação da turnê Lightning Bolt, do álbum homônimo lançado em 2013.

Liderada pelo vocalista Eddie Vedder, a banda de Seattle, com 25 anos de carreira, subiu ao palco mostrando a que veio: tirar os fãs do chão, levar amor às pessoas e deixar momentos inesquecíveis na lembrança de todos. Afinal, um show com 3h10 de duração, marcado por clássicos e covers de primeira linha, não cai fácil no esquecimento.

Logo no início da apresentação, Vedder comentou, em português, auxiliado por anotações em uma folha de papel, sobre o atentado ocorrido em Paris, na França, na noite de sexta-feira, 13, que resultou na morte de mais de 140 pessoas e que deixou outras 350 feridas. “Muito obrigado por estarem aqui. Sentimos que precisamos estar com pessoas hoje”, ele começou. “Nosso amor vai para Paris. Temos muito o que superar juntos”. Na sequência, tocaram a canção Love Boat Captain que, em seu refrão, traz a mensagem “all you need is love” (tudo o que você precisa é amor”.

Músicas como Do The Evolution, Hail Hail e Lightning Bolt fizeram o público ir à loucura, pulando e cantando sem parar.

Com pouco mais de 1 hora de apresentação, o vocalista avisou o público que, por conta dos fortes ventos e da chuva que estava prestes a cair, a banda precisaria fazer uma pausa de cerca de dez minutos, tempo suficiente, segundo ele, para que algumas medidas de segurança fossem tomadas e o show pudesse seguir tranquilamente. Enquanto a banda se preparava para deixar o palco para que a equipe técnica cuidasse dos instrumentos e verificasse a estrutura, Vedder cantou, de improviso, Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town, que não estava prevista no setlist.

No retorno ao palco, não faltaram clássicos, como Even Flow, Jeremy e Better Man, sucessos do primeiro álbum da banda, Ten, de 1991, que incendiaram o público que, àquela altura, já não estava mais se importando com a chuva que caía sem parar.

Um dos pontos mais altos da noite foi a sequência de Imagine, cover de John Lennon, que reforçou a fala de Vedder no início da apresentação sobre paz e amor, e Sirens, que emocionou boa parte do público. O setlist mesclou canções não muito conhecidas do grande público, como Long Road e Of The Girl, com alguns dos principais hits da banda, como Alive e Black, canções em que, em diversos momentos, as vozes do público sobrepunham à voz de Vedder. As únicas “falhas” do repertório, apontada por alguns fãs, foram as ausências das populares Last Kiss e Daughter.

A apresentação foi encerrada por outros dois covers – Rockin’ in the Free World, de Neil Young, e All Along the Watchtower, de Bob Dylan –, que deixaram os fãs ansiosos pelo retorno da banda a São Paulo. Como “bônus”, antes da canção de Dylan, o vocalista levou um belo de um escorregão e caiu sentado no palco molhado, rindo e arrancando risos do público.

A turnê segue agora para Brasília, onde a banda se apresentará em 17 de novembro no Estádio Nacional Mané Garrincha; Belo Horizonte, no dia 20, no Estádio do Mineirão; e Rio de Janeiro, no dia 22, no Estádio do Maracanã.

Setlist
1- Long Road
2- Of the Girl
3- Love Boat Captain
4- Do the Evolution
5- Hail Hail
6- Why Go
7- Getaway
8- Mind Your Manners
9- Deep
10- Corduroy
11- Lightning Bolt
12- Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town
13- Even Flow
14- Come Back
15- Swallowed Whole
16- Given to Fly
17- Jeremy
18- Better Man
19- Rearviewmirror

1° Encore
20- Footsteps
21- Imagine (cover de John Lennon)
22- Sirens
23- Whipping
24- I Am Mine
25- Blood
26- Porch

2° Encore
27- Comatose
28- State of Love and Trust
29- Black
30- Alive
31- Rockin’ in the Free World (cover de Neil Young)
32- Yellow Ledbetter
33- All Along the Watchtower (cover de Bob Dylan)

Muda, Brasil

O que estamos vendo nos últimos dias pelas ruas do País é algo impressionante. Milhares de pessoas – jovens, velhos, homens, mulheres – unidas em favor de uma causa comum. R$ 0,20 foi a gota d’água que faltava para transbordar a insatisfação de uma nação já cansada de ser tratada como lixo por governantes incapazes de entender o conceito básico de democracia (governo do povo para o povo).

Ruas lotadas. Manifestantes que gritavam e exigiam a redução das tarifas de ônibus e de metrô. Sim, são “míseros” R$ 0,20 (valor com o qual não conseguimos comprar sequer um pão francês), mas que, contabilizados ao longo de um ano, representam prejuízo aos bolsos dos trabalhadores, vítimas de um salário-mínimo desrespeitoso, e que, multiplicados pelo número de usuários diários de metrô e/ou ônibus, geram milhões em lucro para as empresas.

Foi – e continua sendo – lindo ver os novos caras pintadas, a “geração Coca-Cola com Mentos”, como alguns brincaram nas redes sociais, que tantos julgaram ser uma geração alienada, exigindo uma posição adequada do governo. E conseguindo.

Não fiz muita coisa se comparado a tudo o que vimos, mas tenho o orgulho de dizer que, sem medo, saí de minha zona de conforto (uma em São Paulo e a outra no Rio de Janeiro) e meti as caras na rua, em meio a milhares de pessoas também de saco cheio dos desmandos e do descaso de nossos governantes, e, ainda que timidamente, dei nossa contribuição.

A participação/manifestação popular não se limitou ao envolvimento daqueles que saíram às ruas em todos os dias de protesto. Alguns optaram pelo boca a boca, outros seguiram o caminho do cyberativismo (também aderi); de alguma maneira, muitas pessoas fizeram o que estava ao seu alcance para mobilizar, para incentivar, para levar os protestos adiante e não deixar os esforços caírem por terra. 

Porém, nem todo mundo aderiu, infelizmente. Alguns por impossibilidades/limitações reais ou por medo mesmo – e depois das cenas lamentáveis da quinta-feira, 13, na Rua da Consolação/SP, ou da segunda-feira, 17, na Alerj/RJ, não tem como não concordar; já outros optaram por ficar em cima do muro, mais uma vez, com a desculpa preguiçosa de “uma pessoa a mais, uma a menos, não muda nada”, “ir pra rua pra quê, se o governo não vai fazer nada mesmo”, “não me misturo com baderneiros”, “são apenas alguns centavos”, “uso tão pouco o transporte público” e a lista de bla bla bla segue.

Mas, independente de vontades e desculpas, e sem julgamentos, a “luta” por um país mais justo e equilibrado continua. Ainda bem. Tudo o que milhões de brasileiros estão fazendo – seja em São Paulo, no Rio de Janeiro, em BH, em Fortaleza, em Manaus, em Porto Alegre, em Niterói ou em qualquer outra cidade do Brasil – é para todos, sem distinção.

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Originalmente postado em Lá e Cá, Dois Mundos

Cidadão Paulistano

Acabei de ficar sabendo que, por unanimidade na Câmara Municipal de São Paulo, Joseph Blatter foi condecorado, em 10 de junho, com o título de Cidadão Paulistano. (Em tempo: ele sequer se deu ao trabalho de comparecer para receber o título, mandou um representante). Para quem não sabe de quem se trata, explico: esse senhor é o presidente da Fifa; aquele que, durante a cerimônia de abertura da Copa das Confederações (15 de junho) pediu respeito e fair play ao público.

Esse é o querido do Joseph Blatter. ¬¬

Agora, é a sua vez de me explicar: o que essa pessoa fez, durante seus 77 anos de vida, em favor da cidade de São Paulo a ponto de ser merecedor desse título? Ele só está no Brasil por conta da Copa das Confederações, e retornará em 2014 para a Copa do Mundo. Traduzindo em miúdos, ele está em terras tupiniquins por dinheiro – ou você acredita que alguém desse meio realmente está ligado ao futebol por amor à pelota?

Ele fez alguma ação de cunho filantrópico em São Paulo? Não.

Contribuiu para a melhoria de algum setor da economia em São Paulo? Não.
Ah, Paula! A Copa do Mundo vai gerar empregos, trazer turistas, aquecer a economia…”. Tá, tá, sei disso. Mas isso não é resultado de uma ação praticada por ele, e sim resultado de investimentos internos – é o nosso dinheiro que está bancando estádios, financiando (via BNDES) hotéis e ampliação de aeroportos… e ainda teremos uma conta alta e adicional no final dessa brincadeira para pagar. Não saiu um centavo sequer do bolso do Blatter. A participação dele nesse caso todo foi, no máximo, pela confirmação do Brasil como sede das duas competições. E aí voltamos à questão de que ele está aqui pelo dinheiro, porque é visível que, em muitas das cidades-sede dos jogos, não temos condições adequadas para receber milhares de turistas e competições de grande porte, mas vamos sediar as Copas porque alguém “molhou a mão” das pessoas certas, encarregadas dessa escolha.

Ele ajudou alguma velhinha ou algum cego a atravessar a rua? Deu comida para alguém que estava com fome? Cuidou de uma cachorrinho doente? Abraçou uma criancinha? Fez qualquer coisa legal, simpática, útil, bonitinha, agradável em prol da cidade ou da população de São Paulo?

Não? Nada? Nadinha mesmo? Então, porque ele é um Cidadão Paulistano?

Desculpe-me, Câmara Municipal, mas não vejo razão para terem concedido esse título a esse senhor.

Faria muito mais sentido dar esse título a mim* ou a qualquer outra pessoa que vive nessa cidade, que enfrenta diariamente transportes públicos lotados, que paga fortunas em impostos, que corre risco de ser assaltado porque o policiamento não é lá grandes coisas em muitas regiões, que se assusta com os preços a cada vez que entra no supermercado, que trabalha de sol a sol, que tem a vida na ponta do lápis para conseguir pagar as contas em dia.

Esse senhor, que não sabe nada sobre o que é ser brasileiro e/ou paulistano, mas se acha no direito de entrar na nossa “casa”, dizer que somos mal educados (somos sim, porque quem deveria investir em educação desviou recursos para as “suas” Copas) e que, ainda por cima, tem a cara de pau de soltar a bobagem de que o futebol é mais forte do que um protesto social que toma as ruas de todo o País e que não deveríamos usar a Copa para apresentar reivindicações definitivamente não é digno desse título. Não é digno sequer do nosso respeito.

Cidadãos Paulistanos somos nós, Câmara. Esse título é nosso.

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(* Só para deixar claro: não posso receber esse título já que sou legitimamente uma cidadã paulistana. Mas a questão não é o título em si e sim a honraria desperdiçada com alguém que não a merece, que simplesmente não dá a mínima para essa cidade!)

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Originalmente postado em Lá e Cá, Dois Mundos

Vem pra rua!

Vem pra rua!

Estamos felizes da vida por ver que o povo brasileiro cansou de ser omisso, deixou de ter medo e está correndo atrás de seus direitos. Finalmente a ideia de “nossos direitos” deixou de ter a carga negativa empregada em frases ofensivas ditas por pessoas acostumadas a oprimir os (supostamente) mais fracos – “não está feliz, vá buscar seus direitos!”, como se isso fosse algo impensável, algo indigno de se fazer. Temos direitos, não apenas deveres! O povo acordou e entendeu isso. Temos muitos direitos!

Vamos para a rua. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Fortaleza, em Manaus…

Vamos fazer as coisas mudarem.

Vamos deixar claro para os nossos governantes – e para quem está lá fora também – que cansamos.

Vamos fazer parte do próximo capítulo da história do Brasil!

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Originalmente postado em Lá e Cá, Dois Mundos

13, um dia estranho

São Paulo, 13 de junho de 2013, 18h30. Fim de expediente na editora. Desci 12 andares e, como sempre faço, caminhei pela Avenida Paulista em direção ao metrô. Nas calçadas, uma movimentação diferente, muito abaixo do normal – a avenida símbolo de São Paulo estava praticamente deserta. Assustador.

Enquanto caminhava, observei um mínimo grupo de jovens criando e pintando cartazes em frente a um shopping. Os seguranças apenas observavam; não representavam perigo. Frases como “O povo não é otário”, “R$ 0,20 não”, entre outras, aos poucos ocupavam o espaço vazio de cada papel espalhado no chão. Intimamente, senti uma pontinha de felicidade. “O brasileiro não está morto”.

Para qualquer lado que eu olhasse, apenas o vazio. Àquela altura, viaturas de polícia já fechavam as ruas de acesso à avenida, bem como já interditavam a Consolação. O segundo protesto contra o aumento de R$ 0,20 nas tarifas do transporte público, diante daquele cenário vazio, parecia que não seria realizado. Decepção.

Ao entrar no metrô, uma surpresa: policiais – homens e mulheres – estavam revistando as pessoas que entravam na estação. Fui uma das “escolhidas” para passar por revista.

  • Por favor, abra sua bolsa – pediu, calma e educadamente, a policial. Tentei descobrir seu nome, mas não havia crachá de identificação. Em nenhum dos policiais.
  • Claro, mas posso saber o motivo antes?
  • Medidas de precaução.
  • Precaução contra o quê? – insisti.
  • Por causa das manifestações. É só para evitar que ocorram acidentes durante a manifestação de hoje.

Consenti, abri a bolsa e revirei os objetos. Felizmente, havia bem menos itens do que de costume: carteira, porta-cartão, óculos de sol, guarda-chuva e celular. Fechei a bolsa e, ao tentar me encaminhar em direção às catracas – lotadas, diga-se de passagem, pois apenas duas estavam liberadas para a entrada de passageiros e outras duas para a saída –, uma nova solicitação.

  • Você poderia abrir seu casaco?
  • Como?
  • É que algumas pessoas estavam carregando materiais estranhos dentro de casacos – respondeu. Acho que percebeu que eu faria mais perguntas se as respostas viessem pela metade.
  • Tá de brincadeira?

Ela riu, mas negou. Realmente havia pessoas carregando objetos nocivos em casacos e jaquetas.

Desabotoei o casaco e ela inspecionou a parte interna. “Limpa. Está liberada. Obrigada pela colaboração”, disse, com um leve sorriso nos lábios, que rapidamente desapareceu quando uma adolescente, praticamente atrás de mim, se recusou a abrir a mochila.

Entendi a relevância do ato, mas, ainda assim, me senti incomodada. Pela primeira vez, em meus quase 32 anos, fui revistada ( revistada de verdade, não aquelas revistas meia-boca em entrada de show) “apenas” porque queria entrar na estação do metrô e ir para a minha casa descansar. É uma sensação muito estranha. Invasão de privacidade.

Segui o bom e velho caminho, do metrô até minha casa, ouvindo rádio e acompanhando a movimentação dos manifestantes. Inicialmente, parecia que a passeata não duraria muito além da concentração que se formava no Centro da cidade, em frente ao Teatro Municipal. Todos reunidos, pacificamente, com flores nas mãos e sentados na escadaria. Um protesto bonito de se ver. Ficaram um tempo lá, lado a lado com a PM, até que decidiram ampliar a manifestação e, aos poucos, seguiram em direção à Consolação, rumo à Paulista.

Um grupo optou por seguir pela Augusta, outros foram pela Bela Cintra. Houve ainda que tentou alcançar a avenida caminhando por Higienópolis. Todo o trajeto, segundo diziam na rádio e em comentários postados no Facebook, e depois na televisão, foi acompanhado de perto por policiais. Nenhuma afronta, nenhum desentendimento, nenhuma crise. Manifestantes caminhando e dizendo frases de efeito; policiais observando. Como disse, um protesto bonito.

Já em casa, as emissoras de TV – até então apoiadoras da pancadaria da PM dias antes – começaram a exibir o momento em que a paz e a organização foram substituídas pela truculência da Tropa de Choque que, por “ordem superior”, entrou em ação para impedir que os manifestantes chegassem ao seu destino.

Balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio voavam para tudo quanto é lado. Estudante? Mete bala! Repórter? Bala na cara! Líderes do movimento? Bomba de efeito moral neles! Naqueles instantes, não importava se quem estava na rua era morador da região, morador de rua, crianças, idosos, manifestantes, carros em trânsito tentando sair da confusão e chegar a salvo em casa. Como cantou o Engenheiros do Hawaii: “Qualquer coisa que se mova é um alvo e ninguém tá salvo. Um disparo. Um estouro.

Em meio ao caos, um homem enfartou dentro do carro, na Consolação. Seu caso – sério, gravíssimo! – foi engolido pelo caos que tomou conta da região. Não sei se ele faleceu, se conseguiu ser atendido prontamente. Não sei. Sei apenas que muita gente saiu machucada, muitos jornalistas e fotógrafos foram impedidos de trabalhar, muitas pessoas ficaram assustada, muitas dúvidas sobre o modus operandi da PM e da Tropa de Choque surgiram (e continuam sem uma resposta oficial). Foi tudo muito exagerado, muito violento, muito desnecessário. Foi doloroso para quem estava lá, revoltante para quem apoiava (e apoia) a manifestava, mas, acima de tudo, foi ridículo para o Governo do Estado – chefe da “quadrilha” que tentou massacrar os manifestantes (ou vai me dizer que aquilo era o comportamento adequado e desejado por parte de quem deveria zelar pela segurança e pela ordem pública?!). Perdeu a credibilidade, perdeu o respeito da população, perdeu a razão.

Foram horas de transmissão. Rádios, TVs, redes sociais em alvoroço. Todo mundo queria entender o que estava acontecendo naquele dia. Quase ninguém entendeu como a história toda virou do avesso – da paz à guerra em tão pouco tempo.

Acredito que muita coisa ainda virá. Coisas boas, espero, embora não tenha tanta certeza disso. Mas sei que hoje, 13 de junho, foi um dia estranho, mas certamente o início de algo que tende a ser grande.

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Originalmente postado em Lá e Cá, Dois Mundos

Carnaval: ame ou odeie

Quase sempre passei o carnaval em São Paulo. Quer dizer, quase sempre estive em São Paulo nessa época do ano, mas participei da festa apenas duas vezes, sendo a primeira na infância, quando estava no maternal (e só porque era festinha da escola), e a segunda em Mongaguá, litoral de São Paulo, quando vi, por acaso, o desfile da cidade e, depois, com meus primos, acabei “caindo no samba”.

Apesar de ter me divertido (principalmente depois que descobri que sabia sambar melhor que muita gente por aí – eis um fato que muita gente não sabe/sabia sobre mim), ainda acho interessante, e até mesmo estranha, toda essa agitação em torno da “ideia” de carnaval.

Acredito que seja uma experiência realmente libertadora sair por aí, atrás de um bloco ou em um baile, fantasiada, pulando e dançando como se não houvesse amanhã. Sou favorável às pessoas serem felizes e se divertirem com os amigos, com a família e, porque não, até mesmo com desconhecidos (com segurança, moderação, bla bla bla), mas confesso que não compreendo essa euforia.

Não saímos fantasiados pelas ruas, nem mesmo quando vamos a festas ou bailes a fantasia (saímos de dentro de nossos carros para dentro do local aonde será a festa), como fazem os cariocas; não vestimos abadás, como fazem os baianos; não jogamos bexigas com água nos carros, como faziam as crianças de outras épocas (e ainda fazem em algumas cidades do litoral ou do interior). Pelo menos, nunca vejo nada disso acontecendo por aí. O que vejo em São Paulo durante essa época é uma cidade feliz, espontânea, com pessoas indo e vindo com bem menos pressa – é carnaval e isso significa que temos um feriadão pela frente para esquecermos o trabalho, descansarmos e sairmos com os amigos.

Temos o segundo melhor carnaval do mundo – o primeiro, sem dúvida, é do Rio de Janeiro –, temos blocos (que eu nem sabia que existiam ou, se algum dia soube, simplesmente ignorei…), temos grandes escolas de samba (que fazem desfiles lindos), temos ensaios durante alguns meses do ano, temos casas de show e baladas especializadas em samba, mas, mesmo assim, não vivenciamos o carnaval como os cariocas. Não temos uma “cultura carnavalesca”.

Talvez seja impressão minha – que sempre dei preferência ao rock, ao punk e, até mesmo, à música clássica –, mas o que vejo é que São Paulo (a minha multicultural São Paulo) tem “samba no pé” apenas alguns dias ao ano e, depois disso, como disse Vinicius de Moraes, voltamos a ser o “túmulo do samba”.

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Texto, na íntegra, orginalmente postado em Lá e Cá, Dois Mundos

De cortar os pulsos

No final de dezembro me matriculei em uma academia perto de casa. Não é a primeira vez que faço isso na minha vida, mas, como das outras vezes, a empolgação teve vida curta. Consegui ir apenas alguns poucos dias – trabalho corrido, horários confusos, freelas, vontade de chegar em casa e ler um livro jogada na cama ou no sofá, falta de paciência para ficar sobre uma esteira como se eu fosse um hamster andando infinitamente em sua “rodinha” sem dar um passo fora do lugar. Mas eu tentei.

Já fazia um bom tempo que eu estava trabalhando em home office quando, finalmente, voltei a fazer parte de uma redação (repleta de mulheres). E como não poderia deixar de ser, vira e mexe o assunto na hora do almoço é dieta, excesso de peso, pneuzinhos. Sem contar que frequentemente aparece uma ou outra amiga falando sobre esse bendito assunto. Como nunca fui magra e sempre tive a vontade de eliminar (perder jamais, senão eu encontro depois) alguns vários quilos, acabei entrando na “pilha” alheia. Encarei shake da Herbalife por pouco mais de uma semana (e é bem gostoso, caso queiram saber); entrei em uma academia; modifiquei alguns hábitos alimentares (quer dizer…); tentei seguir uma dieta que fiz no passado e que, naquela época, deu muito certo. Até que chegou o momento que eu cansei dessa história toda de “corpo perfeito”.

Jamais vou falar para alguém desencanar de fazer dieta ou academia, de tentar se sentir bem consigo mesma ou de qualquer outra coisa que tenha relação com a autoestima de ninguém. Até porque eu também não vou deixar de tentar (só que bem menos). Se a pessoa está se sentindo infeliz com seu corpo, sou super favorável a ela meter as caras e fazer o que acha que é o melhor para ela. Só não me peçam para entrar nesse círculo vicioso de passar fome por tantos dias; comer apenas alimentos amarelos na segunda, verdes na terça, vermelhos na quarta…; enfrentar academia, cirurgias (de redução, plástica ou qualquer outro tipo com fins estéticos) ou qualquer outra insanidade para perder peso/ficar gostosa. Respeito quem faça isso, mas obrigada, não. Tenho coisa demais para pensar diariamente, não preciso acrescentar mais esse drama – e sim, continuarei fora dos padrões.

Gostaria de ter o corpo sarado como o que a mulherada de academia tem: pernas torneadas, bumbum e peitos durinhos, barriga lisinha (se desse para ter um bronzeado legal como muitas cariocas têm, melhor ainda). Quem não? Mas acho que o preço cobrado para se chegar a essa perfeição toda é muito cara, que vai muito além do valor das mensalidades.

Nesses poucos dias que fui à academia, senti como se estivesse perdendo o senso de realidade. Andava 2 km, 3 km, 4 km, mas não saía do lugar, não via nada de diferente ou interessante, não falava com ninguém (as pessoas estavam preocupadas demais em puxar ferro, pedalar, olhar no espelho para ver se a bunda está bonita naquela roupa, correr na esteira, secar o suor, fazer pose forçando o braço para ver se está forte…).

Acho um desperdício de tempo e de vida as pessoas ficarem tanto tempo trancadas voluntariamente em uma academia (depois de passarem os dias em função de trabalho), fazendo atividades que elas poderiam fazer de graça e ao ar livre, em qualquer lugar (mesmo que aqui não tenha praias lindas como no Rio), na companhia de pessoas muito mais agradáveis e queridas, sem nenhum narcisismo. Pior ainda é ver que muitas delas têm apenas um corpo bonito como objetivo de vida e nada mais. Exercitar o cérebro? Não, que coisa chata. Pra quê?

Academia e neuroses estéticas, comuns aqui e no RJ, são coisas que me dão vontade de cortar os pulsos. Dos outros.

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Texto, na íntegra, em Lá e Cá, Dois Mundos

A minha casa

Quem não a conhece, ou a conhece superficialmente, corre o risco de interpretá-la de modo errado. Pode achar que ela é cinza, fria e impessoal; que tem menos colorido e flores do que deveria ter; que não existe vida e amor ali. Sei que em alguns momentos coisas assim parecem ser verdadeiras, e muitas vezes são mesmo, mas São Paulo é bem mais que isso. Ela é diversidade – de raças, crenças, ideias, vivências, desejos, frustrações, amores, culturas, cores, ambições; é complexa e simples ao mesmo tempo; é perfeita em sua imperfeição.

A ideia de deixá-la já veio à cabeça algumas vezes. Mas nunca tive coragem. A vida aqui nem sempre é fácil (por n motivos que estamos cansados de ver na mídia), mas, ainda assim, eu amo São Paulo. Porque a minha cidade é bem maior do que suas dificuldades e seus problemas; porque essa é a cidade onde nasci e cresci, onde está minha família e amigos. E é por isso que eu a amo.

Parabéns a você por seus 459 anos.

Parabéns para nós, brasileiros, por termos você.

♥ SP porque aqui tem espaço para todas as crenças.
[Solo Sagrado, da Igreja Messiânica, e um dos meus lugares favoritos nessa cidade]
 

♥ SP porque aqui tem a avenida mais famosa do País.
 

♥ SP porque aqui há, sim, beleza.
 

♥ SP porque aqui tem natureza e colorido sim.
 

♥ SP porque aqui nós temos os melhores restaurantes do País.
 

♥ SP porque nós temos o Elvis cantando diariamente na Avenida Paulista.
 

♥ SP porque temos muitas opções culturais.
 

♥ SP porque, mesmo em meio à correria do dia a dia, ainda temos espaço para a poesia.
 

Postado originalmente em Lá e Cá, Dois Mundos