Rede social e a autoafirmação do eu

Rede social, como Facebook e Instagram, é um daqueles lugares “mágicos” que faz, hoje em dia, Hollywood – famosa por seu glamour e encantamento – parecer boba. É no mundo virtual, acessível a todos por meio de telas de smartphones e computadores, e não mais nas telas da TV ou do cinema, que as pessoas têm buscado pelo sonho, pelo deslumbramento, por alguém que lhe sirva como referencial de beleza e sucesso. É no Insta da blogueira A, no canal do youtuber B, no blog de moda e beleza da C que estão o objetivo de vida de muitas pessoas – ser como essa pessoa é, ter os objetos que aquela pessoa tem, conhecer os lugares que ela frequenta, ganhar o dinheiro que ela ganha, ser tão famosa quanto ela é.

Particularmente, não vejo grandes problemas em acompanhar esses meios e, em alguns momentos – por que não? -, buscar inspiração para a vida (não importa o tipo de inspiração: profissional, de beleza, de moda, de autoajuda ou apenas para descontrair um pouco). Afinal, essas pessoas, muitas vezes, têm acesso a coisas e pessoas que os “meros mortais” que as acompanham não têm. O perigo, no entanto, está na busca insana por um estilo de vida “fora do comum” e do alcance de todos.

As redes sociais, que deveriam unir pessoas e facilitar sua interação, passaram a abrigar gente desesperada por comentários, likesviews e aprovação de conhecidos ou não. Pessoas completamente desconhecidas postam detalhes de suas vidas como se não houvesse amanhã… e como se alguém realmente se importasse. Fotos de suas casas, de seus guarda-roupas, de seus carros, do que comem ou bebem, onde vão e com quem, fazem stories no Insta e no Facebook sobre seu dia a dia (quase sempre irrelevante e comum), postam selfies e mais selfies, retratam a si mesmas como verdadeiros guerreiros só porque estão comendo um potinho de salada de fruta em vez de uma barrinha de chocolate, porque fizeram uma corrida de 10 km ou acordaram cedo para puxar ferro na academia… tudo sempre acompanhado por diversas hashtags (#felicidade #amigos #avidaebela #fitness…) e por “marcações” de conhecidos, amigos, famosos e/ou marcas/grifes, para que estes, em especial, mas não somente, vejam que vida sensacional elas levam. Na busca por reconhecimento, esquecem-se do bom senso e da moderação, essenciais à saúde mental, e da segurança física e digital.

É tanta carência, exibicionismo e narcismo ao mesmo tempo que chega a dar dó e a causar preocupação. O que importa para o mundo o que você comeu no café da manhã? O que muda na vida dos outros se você usou moletom cinza ou calça de lycra roxa na academia? Quem liga para o fato de você ter derrubado seu iPhone de R$ 3 mil no chão e a tela ter trincado? E daí que seu filho de sete anos quis te acompanhar na corrido de hoje cedo? Quem liga para a marca de cerveja que você está bebendo?

Esses espaços virtuais deveriam ser um local para interação social (afinal, é essa a ideia, não é?) e não para desfile de egos, o que tende a acabar com amizades e “matar” o propósito das redes de unir pessoas. Contudo, também não se trata de encarar as redes sociais com seriedade e mal humor, nem esperar que só se poste sobre política, economia ou questões sociais. A questão é que as pessoas estão perdendo o controle das próprias vidas tentando impressionar gente que nem sabe quem elas são (nem elas sabem quem são essas pessoas tão “desejadas”). É inegável que existem coisas que realmente surpreendem e chamam a atenção por sua beleza, por serem diferentes, “mágicas”, e que a gente queira compartilhar “com o mundo”. Mas tudo tem que chamar a atenção? Sério?

Se só de ver como as pessoas, de modo geral, vivem à base de selfies, como se preocupam em encontrar o melhor ângulo/iluminação para fazer uma foto de um prato de comida, como criam cenários e “ilusões” para ludibriar seus seguidores e passar a ideia de felicidade/sucesso/encantamento é exaustivo, imagine como deve ser para elas próprias, especialmente quando não atingem o objetivo de chamar a atenção alheia. Imagina a frustração e a angústia que isso causa! Deve ser uma sensação muito ruim se empenhar tanto em uma coisa e não obter o retorno desejado.

Essa necessidade de afirmação de si próprio como alguém relevante e indispensável ao mundo (reafirmação da autoconfiança) e a “competição social” (estimulada pela necessidade de destaque ou para se sobressair a algo ou alguém que, em algum momento, lhe tenha causado inveja) estão ultrapassando os limites não apenas do bom senso, mas também da sanidade mental. Há estudos de importantes universidades mostrando que o excesso de selfies, por exemplo, é indicativo de distúrbio mental. Há pessoas que sofrem de verdade, a ponto de perder o apetite, não dormir, ter crise de abstinência como usuários de drogas por falta de interação e reconhecimento nas redes sociais. “Por que não curtiram meu look do dia?”, “Por que não estão comentando sobre o prato de comida (escolha a nacionalidade) que acabei de postar no Insta?”… e aí vem a solidão e a depressão, dois dos maiores problemas deste século, no qual as pessoas estão conectadas por meio de diversas redes e, contraditoriamente, distantes ao mesmo tempo, cada uma vivendo dentro de sua própria bolha, tentando, de todos os modos possíveis, chamar a atenção dos demais.

Menos marketing, mais ação!

MENOS MARKETING, MAIS AÇÃO!

Por Paula Craveiro


Falar sobre a importância da adoção de políticas de responsabilidade social por parte das empresas (independente de ramo de atuação e porte) é, como se costuma dizer, “chover no molhado”. Qualquer entidade consciente sabe que, hoje em dia, é preciso oferecer aos clientes e à sociedade muito mais do que produtos e serviços de qualidade, uma vez que isso se tornou uma exigência natural.

Frente a essa necessidade, inúmeras companhias vêm adotando ações errôneas (ou, na maioria dos casos, oportunistas), no intuito de se apresentarem ao público de maneira diferenciada, buscando provar que são “engajadas”, que se preocupam não apenas com o lucro, mas também com o ser humano. Vendo por esse ângulo, realmente a proposta é encantadora: “ajudar ao próximo”. Pena que, analisando um pouco mais a fundo, a “coisa” não funcione tão bem assim.

O primeiro grande equívoco praticado está no desconhecimento do significado verdadeiro de Marketing Social e sua função. Contrariando muito do que vem sendo feito, Marketing Social é um conjunto de ações e estratégias planejadas para a implantação de programas desenvolvidos para a promoção de melhorias sociais, por intermédio da utilização de técnicas do Marketing “tradicional”. Isso representa que o criador de uma campanha de Marketing Social é, geralmente, uma entidade civil sem fins lucrativos ou um órgão do Governo, o que não impede, é claro, que uma empresa privada invista nesse segmento.

Para atuar dessa forma, é indispensável que se tenha em mente, obrigatoriamente, a busca por soluções de impacto social referentes à tomada de atitudes, comportamentos e práticas que contribuam para o fortalecimento e a implantação de políticas públicas, a divulgação de causas sociais relevantes e a transformação social, estando, todas elas, necessariamente afastadas de qualquer forma de ganho (de imagem e financeiro). Em outras palavras, Marketing Social é uma raridade. O que normalmente encontramos “por aí” é o chamado Marketing de Causa (Cause Related Marketing), que é uma atividade focada em um objetivo específico, geralmente realizado por uma empresa com a finalidade de agregar valores sociais à sua marca e aumentar a vendagem de seus produtos ou serviços.

Utilizado adequadamente, o Marketing de Causa Social é uma excelente ferramenta de posicionamento corporativo, pois com o recurso das técnicas tradicionais aliado a uma questão social, todos os envolvidos têm a possibilidade de sair ganhando: empresas, entidades e sociedade. É evidente que ao desenvolver uma ação como essa, a companhia está interessada, primeiramente, nos lucros oriundos do sucesso da mesma. Isso é inegável – e não é nenhum pecado! Entretanto, para que tais programas sejam constantemente incentivados, é de suma importância que a comunicação entre todos os agentes participantes seja transparente e direta, de forma a não induzir a sociedade ao erro e não deixar lacunas de informação.

O que é definitivamente errado é a maneira como essas ações são repassadas ao público (mercado, sociedade e mídia). Geralmente a empresa se coloca na posição de “defensora” de uma causa ou entidade, como se nada mais importasse. E todos sabemos que isso raramente ocorre. Um outro sério equívoco é confundir investimento social privado e responsabilidade social. O fato de apoiar com “data marcada” uma entidade ou causa não faz com que a empresa seja considerada socialmente responsável.

Esse título “bonitinho” somente é conquistado por aquelas empresas que agem responsavelmente durante os 365 dias do ano. É importante que se compreenda que responsabilidade social não diz respeito apenas a uma ou outra doação ou à inserção de um selo nos impressos e demais materiais institucionais. Na área do investimento social privado, muitas empresas têm se acostumado a beneficiar somente algumas entidades e organizações não-governamentais (que têm mais destaque na mídia ou que contem com um patrono conhecido). Essa atitude faz com que a população questione as intenções que levaram a corporação a investir nesse e não naquele projeto, e contribui para o fechamento de entidades filantrópicas e ONGs por falta de recursos. Se continuarem insistindo nesses erros, as empresas contribuirão para o insucesso de seus próprios investimentos ditos “sociais”, levando sua imagem e reputação ao descrédito. Pensando que todo consumidor também é um cidadão, fica claro que se este perceber que determinada empresa está realizando algum projeto ou campanha com a finalidade de autopromoção, mesmo que inconscientemente, ele começará a olhá-la de forma diferente, com desconfiança, passando a evitar esse ou aquele produto, e migrando para a concorrência.

Como se pôde notar, há ainda muita a ser feito, muito a ser melhorado; principalmente no sentido de que as empresas assumam, verdadeiramente, o papel de agentes sociais no processo de desenvolvimento, compreendendo que a responsabilidade social deve estar presente no DNA corporativo e ser, essencialmente, uma vocação empresarial, traduzindo-se na constante necessidade de fazer deste país uma nação mais justa e solidária, menos preocupada com o “próprio umbigo”.

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* Paula Craveiro é jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela Universidade Metodista de São Paulo.

[Artigo publicado em setembro de 2005 na Revista Apólice]
[Artigo reproduzido em 24/6/2006 no site O Guaruçá]
[Artigo reproduzido em 21/6/2006 no site PautaSocial]