Além dos muros da escola

A importância da realização de iniciativas que promovam a interação entre o meio escolar e seu entorno e a transformação dos envolvidos

Por Paula Craveiro
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A relação entre escola e famílias é imprescindível para o desenvolvimento integral da criança e do adolescente. Por meio dessa parceria, comunidade, professores, pais e alunos têm a oportunidade de trocar experiências e compartilhar novas ideias. Mais ainda, a união desses entes contribui significativamente para a construção de escolas mais completas e humanitárias, com vistas à formação de cidadãos plenos, conscientes de seu papel, deveres e obrigações.

Segundo Gilberto Dimenstein, jornalista e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz, é o trabalho em conjunto entre as organizações que garantirá um aprendizado de qualidade aos alunos. “O grande problema é que a sociedade coloca toda a responsabilidade da educação em cima da escola, como se ela fosse a única responsável por isso, e sabemos que não é”, comenta. Dimenstein explica que a sociedade deve ver a escola não como o único meio para educar jovens e adolescentes, mas como um agente participativo.

Ele afirma que os pais também precisam estar mais envolvidos na vida escolar dos filhos, exigindo melhor currículo e mais empenho dos professores. Quanto ao poder público, este é responsável por captar recursos para as questões educacionais e é fundamental nessa evolução. Porém, é a escola que exerce o principal papel. “A unidade escolar não pode ser só um espaço para salas de aula, mas sim um lugar conectado à realidade. O diretor deve ser um líder comunitário que envolve atores nesse processo de aprendizagem”, finalizou.

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Bairro-escola

Objetivando essa integração, a ONG Cidade Escola Aprendiz desenvolve e divulga o conceito de bairro-escola, que visa aprimorar comunidade e educação. Um dos projetos do bairro-escola é o Escolas Irmãs, que estimula a criação e exposição de trabalhos artísticos realizados por crianças, jovens, familiares, professores e comunidade em muros e áreas internas de escolas públicas. “A principal meta é despertar a noção de pertencimento da comunidade em relação às instituições de ensino, modifi cando a relação que os cidadãos têm com os bens públicos a partir do momento em que passam a se reconhecer neles”, esclarece Dimenstein.

Inicialmente, a ideia era criar uma experiência que integrasse comunidade e escola, criando um espaço para reunir lazer, cultura e educação. O projeto começou com a revitalização de muros da Vila Madalena, em São Paulo, onde a ONG está sediada, e isso acabou chamando a atenção de crianças e jovens locais. A partir daí, percebeu-se que o desafio de garantir uma educação de qualidade dependia da articulação com a comunidade. Surgiu, assim, o conceito de bairro-escola, um modelo que pode ser replicado no Brasil inteiro.

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Escola da Família

O programa Escola da Família, que abre as escolas à comunidade aos sábados, criou importante espaço para a integração escola-comunidade. O dia é considerado o melhor para a direção reunir-se com os pais para um bate-papo sobre o ensino que se ministra na escola e os problemas por ela enfrentados – e, até mesmo, para orientá-los no que tange a educação no lar.

“Promover a participação dos pais na vida escolar não é fácil. Eles precisam adquirir o hábito de participar. Muitos diretores dizem que já fizeram várias tentativas, mas que os resultados foram insatisfatórios. Diante da baixa adesão, muitos acabam abandonando o projeto. Nada mais equivocado”, comenta Carlos Eduardo Maciel, professor da rede pública de São Paulo.

A presença de pais nas reuniões promovidas pela direção é uma questão de perseverança por parte do diretor interessado. Dependendo do assunto a ser tratado, os pais comparecerão em maior ou menor número. No entanto, a prática rotineira de discutir com a comunidade os problemas da escola fará com que os pais se acostumem a também fazerem parte das soluções. “Hoje, a integração dos pais na vida da escola é um benefício é de mão dupla: de um lado favorece a direção e a escola pelo apoio que darão a uma instituição que os prestigia; de outro, os pais, agora informados sobre o andamento dos trabalhos escolares, poderão acompanhar melhor a atuação dos filhos, tanto em relação à aprendizagem quanto sobre a conduta deles frente a colegas, professores e funcionários da unidade escolar”, ressalta Maciel.

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Escola integrada

Unir forças com as famílias, valorizar saberes locais e encadear ações para o desenvolvimento das crianças são a base da relação entre a escola e o entorno de Escola Municipal Ulisses Guimarães, de Belo Horizonte (MG).

Beatriz Levischi, diretora da escola, acreditava que o ambiente da favela jamais poderia contribuir de maneira positiva para a aprendizagem de seus alunos. A gestora, porém, se surpreendeu ao ver o cuidado dedicado pela comunidade em relação ao espaço por onde as crianças passaram a transitar. O trabalho, resultado do projeto Escola Integrada, mudou a relação dos pais com instituição, criando condições de sociabilidade que resultaram em notas melhores.

Os moradores organizaram mutirão para rebocar as casas, com cimento e areia fornecidos pela escola; e pressionaram o Poder Público para que os sacos de lixo fossem coletados diariamente, transformando o antigo lixão numa pracinha. “Os animais e os bêbados que perambulavam sem rumo pelas ruas voltaram para seus lares. Até o ponto de drogas desapareceu”, lembra Beatriz.

Criado em 2006 pela Secretaria Municipal de Educação, o Escola Integrada tem como objetivo oferecer uma formação integral aos estudantes do Ensino Fundamental, ampliando a jornada. “As atividades são conduzidas por universitários e agentes culturais e coordenadas pelo professor comunitário, que precisa ter um trânsito legal com as famílias”, explica a coordenadora do programa, Neusa Macedo.

Hoje, em locais como a igreja, o terreno da prefeitura e a quadra da associação de bairro do Morro do Papagaio, onde a escola está inserida, são realizadas oficinas de arte, dança contemporânea, teatro, xadrez e capoeira. E a favela se encheu de cores e sons. Como reflexo, a população também passou a enxergar os alunos de modo diferente. “Se antes tinham medo ou dó dos meninos, agora os olham com admiração. Eles, por sua vez, se sentem mais capazes”, celebra Beatriz.

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Professor Comunitário

Para fortalecer os vínculos de escolas com os pais e a comunidade, a Associação Parceiros da Educação criou o projeto Professor Comunitário, no qual um profissional articula o trabalho de órgãos públicos, instituições e líderes comunitários com a escola. “Na fase piloto, o projeto foi muito bem sucedido. Fez a diferença nas escolas, porque trouxe a comunidade para dentro das instituições de ensino”, conta a diretora executiva da associação, Lúcia Fávero. “Temos pais procurando matricular os filhos devido ao trabalho desenvolvido pelo projeto, que integrou escola e comunidade.”

O professor comunitário é responsável por fazer um diagnóstico da escola para entender a dinâmica interna e um mapeamento da região, verificando o que existe no entorno, para depois começar a articulação local. “Em uma das escolas, houve a interação com um posto de saúde. A equipe se prontificou a fazer uma apresentação de higiene bucal para os alunos”, destaca.

A diretora ressalta que o educador comunitário ajuda na composição do que chamou de grupo articulador, no qual fazem parte professores, pais, líderes comunitários e gestores da escola. Os objetivos de atuação da equipe serão definidos pelo próprio grupo. “Os gestores e pais também passam a se sentir valorizados. Uma escola faz diferença e apresenta resultados relevantes quando existe participação da comunidade”, conclui Lúcia.

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Revista Informativa Educacional nº 14 – páginas 36 e 37 – ano 2001
[Download: capapágina 36 + página 37]

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